CAMINHANDO A GENTE APRENDE A CAMINHAR 
De dia o cheiro é do jardim da casa onde moram meus pais. Pouco mais tarde (se é que seis horas da manhã pode ser considerado um horário mais ou menos tarde) sempre tem o cheiro daquele toucinho ou do ovo que a vizinha prepara para colocar na marmita do marido. Quando o horário do almoço se aproxima é fácil saber se o vizinho do lado esquerdo vai comer bife acebolado ou o da frente, omelete. Ah, os moradores da esquina eu vi crescerem e um da direita, vi morrer. Todos na rua sabem o horário que a dona Maria sai para trabalhar e quanto tempo ela tem para o almoço. Não é difícil ter ciência também de que o João e a Rosa discutem todos os dias e que a Joana e família assistem TV em alto volume e dão gargalhadas no horário que a maioria dos vizinhos já esquenta as camas com os corpos preparados para a labuta do dia seguinte. Nas ruas têm semáforo, carro velho e carro novo, daqueles que nem anúncio na televisão tem ainda; mas não tem cheiro de trânsito. Depois que a noite cai, tem lugar da cidade com cheiro de cachorro-quente, gosto de terra molhada, vista de vizinho na cadeira de área colocada estrategicamente na calçada para observar o movimento nas ruas. Também tem lugar com cheiro de mato, mato mesmo e muitas casas em construção. Foi nesse lugar, com menos de duzentos mil habitantes e muitas percepções que nasci... chorona e de onde saio, menos chorona é verdade, mas muito mais feliz. ***P.S.: Vou sentir saudade da terrinha quente do boi gordo***
Escrito por Lu Zani às 20h21
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